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sábado, 29 de março de 2014

Capuchinho


rubro era o seu pecado
tingido na vã inocência
passeava só sem licença
com docinhos confeitados
de sabores atávicos

trazia o cesto de enlaces
com sonhos de chocolates
deleites aos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos aos sonhos
de comê-la

e ela pequena
melindrada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça

sacharuk

quinta-feira, 27 de março de 2014

Entregue a Poesia



Entregue a Poesia

A manhã ainda reverbera silêncios, quando meus olhos se entediam dos sonhos. Vai ver é ela! este ser a quem sou submissa e escrava, que me tira dos lençóis sem qualquer piedade, e fingindo um amor ironicamente eterno me carrega pelos vãos da casa até o ponto de partida.

Fica esperando o tênue instante do voo, senta ao meu lado e só observa este transe. Eu já não reluto, sinto-me entregue e incapaz de nega-la seus desejos e vou com ela até as altas horas e despenco de nuvens e subo até os anéis de saturno. Rodopio os buracos negros de sua inexatidão e afago os rostos nublados das pontes sonolentas.

Algo caiu lá fora, uma folha suicida provavelmente, mas as notas que me tomam a mente e que em cordas se fazem e refazem não me permitem ir ver o que foi, neste instante sou só água de rio, frio e obstinado sigo meu caminho de atalhos, ouvindo ao longe este sax que parece desenhar brilhos na lâmina d'agua de mim. Enquanto as guitarras arranham minhas saudades com toques suaves e a lua sorri.

Ah...esta doce tirana! sábia que é de meu amor, não retrocede um só milímetro de seu intento de me esvaziar, rasga minha pele com garras afiadas, me vê sangrar, e posso ver em seus olhos um prazer absurdo! fica ali estática aproveitando cada segundo de meu liquefeito fenecer em linhas. Depois, costura-me ou me deixa assim escancarada caso o sol venha antes do meu sono, enfim ela sempre faz o que quer de mim.
Há dias em que desconfio que em minhas veias correm outra coisa e não sangue. E que em minha pele interna tem de haver papiros antigos, quem sabe escondido entre as costelas e a coluna vertebral haja um armário, um cofre...não sei.

É, são nessas horas silenciosas que vão saboreando a madrugada favo á favo, e os favos derretem na língua como algodão doce, que a olho no fundo das retinas e percebo mais de perto seus mistérios e difusas intenções . Sua alma é muito intensa e há instantes em que sua luz incendeia tudo por aqui. Mas ai ela repousa, suspirando como se mais um parto na madrugada fosse finalmente terminando, e calma como um anjo, me olha nos olhos e em instantes me surpreende e volta á soprar e eu tenho de ir, como eu já falei não sei escapar de suas vontades, começa tudo novamente.

Assim é, sou literalmente possuída por ela, meus dedos quase não me obedecem, meus olhos se transformam em expectadores e só veem horizontes, o papel vai sendo germinado, e proliferam gametas desta alucinada cópula no útero manso de mais uma página.
Há momentos em que suspiro, e ela sempre me olha apressada! mas é que este esvaziamento me da uma sensação de vento saindo de dentro e eu tento só apressar seu caminho ao universo dos vapores que sobem aos céus.

- Não é nada querida á tranquilizo, imploro um momento de silêncio apenas, peço para ir lá fora ver as estrelas, mas ela só responde assim:

- Depois.

Eu, me aquieto e entro em mais um rodopio do som da guitarra, sinto mais forte o vento que agora aninha-se em meus cabelos, e entra em cada cacho e vai descendo pela nuca, costas e seios, e num giro rápido toma todo meu corpo e me fazendo subir em êxtase ao centro da sala, meus pés estão no ar e apenas flutuo. O vento da poesia sabe muito bem onde começamos e onde terminamos, ele reconhece cada fragmento de alma ou medo, amor ou renuncia, ele mais que qualquer um conhece o sabor de seus poetas e quando ele decide levar-nos com ele, o melhor a fazer é apenas se entregar.

O tempo então, torna-se apenas um ínfimo detalhe. E o mundo para! Quando finalmente ela me permite pisar o chão, já não estou na sala, mas agora no gramado e está frio. Ouço sons que me lembram onças do mato e um calafrio me passa pela pele que agora arrepiada estremece. Busco a lua, mas escondida entre duas nuvens ela ainda não pode me socorrer e nem ouve meu clamor telepático, no momento há postas demais falando com a lua, posso ouvir seus sussurros.

No azul que dorme na água, leio frases que falam de morte e despedidas, um lobo uivou dentro da mata, o verde da grama agora começa a enraizar meus pés, sinto os fios subirem por entre meus dedos, perna e coxa, eu não posso me soltar e a poesia de pé e há uns dois metros de mim apenas instiga a força do verso.

Minha pele petrificada num misto de prazer e pavor, começa a ser sobreposta e camadas sobre camadas agora, transmuto-me em árvore, sinto algo percorrer-me por dentro, uma seiva quente! que escorre docemente em palavras que ainda não consigo decifrar. Sei que é ela, eu sei que é ela e juro! neste momento seus olhos brilham e ela guarda na face um riso manso.

As camadas me chegam a face e cobrem meus olhos, mais nada vejo, só sinto a brisa da madrugada e o transformar de meus cabelos em folhas e em cada erupção de fruto, desfaço-me um pouco mais. Está frio demais aqui e adormeço. Muito ao longe, uma guitarra ainda chora.

Não sei quantas horas se passaram, não lembro do que aconteceu depois, mas quando acordei, eu dormia nos braços dos lençóis ainda, a manhã já não reverberava silêncios mas agora exibia-se em muitos cantos de pássaros, e eu até acreditei ter sido só um sonho, até que senti entre meus dedos dos pés um fininho e dourado pedaço de raiz, e tirei de meus cabelos uma peninha de canário da terra. Bom dia poesia! penso em silêncio, mas também no meu silêncio sinto ecoar um suspiro de satisfação e percebo tão bem o amadeirado, irresistível e perigoso perfume dela.

Márcia Poesia de Sá - 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

noite misteriosa dos mitos


noite misteriosa dos mitos

na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

sacharuk


terça-feira, 18 de março de 2014

Além das tolas certezas

Além das tolas certezas

Se andar ao teu lado
fico ensimesmado
no teu riso absurdo

Se andar ao teu lado
fico fundamentado
nos teus juízos sem prumo

Leio placas na estrada
que não dizem mais nada
além das tolas certezas

Leio traços da tua beleza
e minha tristeza arraigada
vai embora indefesa.

Wasil Sacharuk

domingo, 16 de março de 2014

FIGURAS DE LINGUAGEM

FIGURAS DE LINGUAGEM

FIGURAS DE PALAVRAS

FIGURAS DE PENSAMENTO

FIGURAS DE CONSTRUÇÃO

Comparação (símile) – aproxima dois seres a partir de uma característica que lhes é comum. Pedro joga xadrez como seu pai.

Metáfora – comparação implícita entre dois seres. Ela tem o rosto de porcelana.

Catacrese (abuso) – dar um novo sentido a um termo já existente. Doía-lhe a barriga da perna.

Metonímia (sinédoque) – associação de termos e idéias relacionados que provoca a substituição de um termo por outro. Eu leio Machado de Assis.

Perífrase (antonomásia) – espécie de metonímia, porque implica na substituição de um nome próprio por uma circunstância ou qualidade que a ele se refere. A Cidade-Luz continua bela e majestosa.

Sinestesia – misturam-se, numa mesma expressão, sensações percebidas por diferentes sentidos ao mesmo tempo. “Os olhos, magnetizados, escutam.” (Carlos Drummond de Andrade)

Apóstrofe – interpelação de alguém em meio ao discurso. Ó espíritos errantes sobre a terra! (Castro Alves)

Antítese (contraste) – emprego de palavras que se opõem quanto ao sentido. As sempre-vivas morreram.

Hipérbole – exagero da expressão para reforçar uma idéia. Sabia de cor mil e duzentas orações.

Prosopopéia (personificação) – atribuição de atitudes inanimadas ou humanas a seres inanimados ou irracionais. Exemplo: histórias em quadrinhos.

Ironia – quando se diz algo querendo dizer exatamente o contrário. Ele é o máximo: tirou dois na prova.

Eufemismo – uso de formas mais amenas para dizer algo que choque o interlocutor. Sua tia descansou para sempre.

Amplificação – enumeração das qualidades de um ser de tal modo que elas vão se ampliando e somando. “A vida é o dia de hoje, a vida é ai que mal soa, a vida é sombra que foge, a vida é nuvem que voa.” (João de Deus)

Gradação (clímax) – apresentação de idéias em progressão ascendente ou descendente. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. (Pe. Vieira)

Paradoxo – consiste esta figura, em usar, intencionalmente, o contra-senso.

Valentia covarde

Anáfora – repetição de palavra ou frase no início de versos ou frases. “É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades, é preciso substituir nós todos” (Carlos Drummond de Andrade)

Inversão (anástrofe) – alteração da ordem normal dos termos na oração ou das orações no período com o fim de lhes dar destaque. ... imitar era o meio indicado; fingida era a inspiração, e artificial o entusiasmo (Gonçalves Dias) / quando a inversão é violenta, forma-se o hipérbatoimitar indicado o meio era.

Pleonasmo – repetição de uma idéia (com ou sem repetição de palavras) para tornar a expressão enfática. Vi, claramente visto, a raiva sentida. Obs.: pleonasmo vicioso é um vício de linguagem que consiste na redundância de palavras ou expressões: Vi com meus próprios olhos.

Polissíndeto – repetição intencional e enfática da conjunção e. O mar é calmo, e belo, e verde, e deserto.

Assíndeto – omissão da conjunção e ou dos conectivos aditivos. “É o órgão da fé, o órgão da esperança, o órgão do ideal.” (Rui Barbosa)

Elipse (zeugma) – omissão de palavras ou expressões facilmente subentendidas. “O mar é ― largo sereno; O céu ― um manto azulado” (Casimiro de Abreu)

Anacoluto – ocorre quando há interrupção na frase, iniciando-se outra sem conexão sintática com a anterior. Tua língua materna, nunca vi idioma mais complicado.

Onomatopéia – reprodução escrita ou falada de sons e ruídos. Tic-tac!” Batia, com desespero, o relógio da sala de estar.

sábado, 15 de março de 2014

poema de água de rio

poema de água de rio

poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias

sacharuk

quarta-feira, 5 de março de 2014

Essencial

fotografia: Andréa Iunes


Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & Wasil Sacharuk

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Centopeia Dividida




A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

sacharuk