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A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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sacharuk escreve em inspiraturas.org

sentinela

sentinela

das tuas injúrias malditas
elaborei o calabouço
ofusquei a chama das velas
em oportunidades distintas
espreitei-te da janela

reinaste em meu hades
meu mestre
minha esperança
agora sou só espírito
a irromper pelas grades
sob a ira da vingança

deixo-te ir, afinal
à tua sorte miserável
rumo de passos aflitos
onde os desígnios do mal
arrancarão teu último grito

daqui do meu quarto
ouvirei os badalos do sino
e esperarei sentinela
o encontro do fio do meu corte
com a linha do teu destino

sacharuk

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rasgando e reunindo

rasgando e reunindo

percorro minha vida a te navegar
pelas águas que pairam
a me refletirem
e desbravo-te
pelo louco querer

o laço da tua vida a me desatar
a lágrima e o sorriso a nos dividirem
rasgando e reunindo o nosso ser

sacharuk






patético velhaco

patético velhaco

o tolo
da imensa alcateia
boboca em pele do lobo
cacto no deserto da ideia
nada mais do que velho bobo

rançoso do arco da velha
bocório elevado ao cubo
cachorro comedor de ovelha
parasita carente de adubo

o bardo
sem uma centelha
é tal discurso bicudo
que rasga o tubo da orelha

chupado no próprio canudo
chuva em teto sem telha
ou cu que engole tudo

sacharuk


Órfãos


Órfãos

Andávamos, tortos,
trôpegos, tontos
como quem à noite
caminha

Estávamos assim
no fim do início
no início do fim
do precipício

Traçávamos, mortos
sôfregos pontos
como quem jamais
se aninha

Sangrávamos, órfãos
de poesia

Corre nas veias
a mais pura anemia.

Lena Ferreira & sacharuk



o medo da travessia das ruas



o medo da travessia das ruas

ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitado passado
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
no dia abençoado
por um sol de poesia

ainda sei teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
nos ciclos da lua
da travessia das ruas
na rota dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia

sacharuk


ao meu pai



sina de estrada


sina de estrada

tenho certos instantes
de cruel lucidez

quando escorre
essa insensatez
que sempre dissolve
meu conceito de tudo
em certeza de nada
e sumo por viadutos
a cumprir as mercês
dessa sina de estrada

percorro tanto chão
sem olhar estrelas

quando morre
o imo da beleza
eis que a vida resolve
me vagar pelo mundo
como alma penada
num abismo profundo
a remoer a aspereza
e essa fome danada

desentendo o levante
dessas ideologias

que implode
a alma das poesias
enquanto desfere
o veneno agudo
da conversa fiada
e num só segundo
suga toda a energia
que vem da tomada

conto que esse tempo
não seja arbitrário

só ele é que pode
andar ao contrário
e fazer pretérito
desse rumo escuro
desde vidas passadas
e subtrai os minutos
para o desaniversário
dessas favas contadas

sacharuk




poesia coitada

poesia coitada

moro no bloco de gelo
onde certa poesia
tentou colher vestígios de sol

colheu nada
a poesia coitada
não esperou derreter
formar o vasto lençol

não foi desmazelo
sequer vontade vazia
a colheita negada
à poesia coitada

antes do anoitecer
nalgum lugar do planeta
sempre forma arrebol
nas planícies geladas

mas não consegue aquecer
as margens da enseada
enquanto o frio se sustenta
em gotas cristalizadas

sacharuk

 ilustrações-4

com quem andas aonde vais

com quem andas aonde vais

quero saber de ti 
o que cantas 
com quem andas 
aonde vais  

não choramingo meus ais 
sequer escrevo uma carta
sobre a saudade que mata
e o nó que não ata
nunca mais

deixo para trás
as ciências exatas
as premissas mais chatas
verdades universais

pretendo nada demais
apenas a medida certa
onde a cabeça não esquenta
além dos níveis normais

quero saber de ti
o que cantas
com quem andas
aonde vais

a apenas falar contigo
algumas palavras banais

sacharuk





trapiche das noites

trapiche das noites

 rasgo na noite de luz
 trilha traçada na água
 rumo para os devaneios
instiga enquanto seduz
afasta a ira e a mágoa

desenho de lua na areia
talvez fosse nova ou cheia
mundo marcado no meio
pelo caminho de madeira
o velho trapiche é esteio

navegam mistérios à deriva
naquela laguna tão viva
que acaricia os lamentos
beija a testa dos anseios
com doces sopros de vento

sempre que a noite incendeia
a praia ilumina, mancheia
reflete em cada um dos veios
daquela estrutura altaneira
atracadouro de tantos segredos

sacharuk

fotografia: William Gómez


balanço do açoite

balanço do açoite

"...e o silêncio em silêncio agoniza."
(Márcia Maia - "Banquete")


a sede
e o nó
trama de estar só
silenciando a tarde
quando arrefece
o derradeiro alarde
das vozes da solidão

entre azulados
violetas
e magentas
o silêncio é a porta
do aposento da noite

e a solidão
fingida de morta

é o açoite

sacharuk






foi assim

foi assim

quis saber o que ocorre na mente e deixou a semente brotar para contemplar a expressão

cada oportunidade granjeada e cada verdade submetida ao crivo da razão

foram tantas tentativas quantas possíveis em todos os níveis do discernimento

esgotados os argumentos em tempo

dedicou instantes significativos a provar do semblante aflitivo e do grito por solução

meditação
observação
obcecado pela questão

qual nascente das atitudes
 amiúde dos pensamentos?
para onde vão depois que passam por aqui?

teve na mira o controle da ira
nada religioso ou sobrenatural
era busca do gozo pelo domínio mental

trouxe a dinâmica na guia e o escrutínio de raciocínios insanos jogados em meio aos anseios e reações
comeu dos restos servidos aos cães

fingiu pensar flagrou-se pensado
atolado na lama dos padrões e das pré-concepções

mergulhou no centro da chama das ilusões
no intento o cotidiano clamou socorro
perdeu o curso sereno
tudo revirado tão depressa

das soluções caducas perdidas em hesitação o mundo ficou cheio e nem tentou fazer as pazes
foi apenas um sistema esclerosado e portanto decadente
os dentes da engrenagem não suportaram tantas resoluções complexamente abstratas

procurou a vida já pronta
na despensa, nas latas
vasculhada nas quinquilharias
nos vestígios da origem da confusão

 sacharuk