A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

- 2182 - Odisseia sobre terroristas, putas e o país do futebol, de Véio China - www.inspiraturas.org


- 2182 - Odisseia sobre terroristas, putas e o país do futebol

Part. I - 2182 – O caos e a última geração humana

Estamos no ano de 2182, e eu com 82 ao nascer cem anos após a virada do segundo milênio. Todavia algo de muito incomum acontece, pois desde os primeiros meses de 2122 não se teve notícia da geração de vida humana. É situação complicada, e ao não criarmos vida tornamos este mundo num ser velho onde a população decresce a cada ano e em ritmo assustador. Outro fator de preocupação são os inexistentes locais urbanos para a criação de novos cemitérios, pois os que aí estão se abarrotam de valas e corpos, mesmo que, inexplicavelmente a expectativa de vida tenha aumentado, pois mesmo doentes tem muita gente vivendo próxima dos 100 anos de idade. Sobre a falta de ofertas e a exiguidade dos espaços nas grandes cidades especulam que o Poder Central estaria tramando projeto de lei onde a cremação de corpos passe a ser obrigatória, e esta sim, mesmo que desumana por ser ato de arbítrio, reduzirá substancialmente o consumo de velas, o trafego caótico, assim como os exorbitantes preços das flores, principalmente nos dias das mães e finados.
Agora e a bem verdade o fato de não mais concebermos a vida tornou-se mistério e me deixa incomodado ante a indiferença da maioria, quase num esquecimento global. Todavia é assunto que sempre que vem à tona gera controvérsia, pois a própria ciência calou-se à época dos fatos, permitindo que a raça humana criasse histórias e lendas sobre a desgraça, principalmente a de que ela estaria ligada à três possíveis fatos que, de forma ou de outra se interligam por questões religiosas.


Part. II – Católicos & Fundamentalistas contam suas histórias

Sim! As mentes ainda permanecem criativas e fervorosas apesar de nossas idade, e assim há aqueles que abraçam a tese de que o Deus do catolicismo seria o gestor da improdutividade dos nossos pobres óvulos e espermatozoides. E dizem mais ainda; que o castigo foi obra do seu aborrecimento diante dos nossos caminhos de pecados, devassidões e o fruto do desamor que nos fez afastar dos seus 10 intransigentes mandamentos.
Em contrapartida há a versão dos fundamentalista islâmica, e ela afirma que o plano foi arquitetado por vingança ao assassinato de Osama Bin Laden, dado em 2011,executado pelas mãos dum soldado americano, mesmo que 110 anos distanciassem da data da contaminação de 2121. E sobre ela os Fundamentalistas afirmam que foi executada por cientistas europeus recrutados à preço de ouro pela Al Qaeda, criando nos laboratórios clandestinos o vírus anticonceptivo. E o curioso da versão fica por conta de que a disseminação viral deveria abranger unicamente os reservatórios de águas potáveis das cidades norte-americana, o grande Satã. Porém por descuidos de observância a fórmula acabou por cair em mãos dum grupo Xiita ultra radical radical através de um dos mercenários daquela equipe científica, cobrando um valor três vezes maior que o ouro recebido que na primeira vez. Saliente-se que esses grupos xiitas não mais acreditavam na existência dum mundo como era concebido, pois além de seus próprios povos estarem contaminados pela filosofia libertina e consumista do ocidente, havia dolorosa realidade do seu povo não mais acatar os preceitos de Maomé. Portanto não só os Estados Unidos, mas também a própria existência deveria ser punida e exterminada, mesmo que à longo prazo. E desta forma e em nome de Maomé enviaram extremistas para todas as partes do mundo que, inseminaram o vírus nos leitos dos rios de todo o planeta


Part. III - Os Evangélicos também tem a sua versão

E por fim há a versão divulgada pelo gigantismo da igreja Universo do Templo do Senhor, do Bispo Emir Macedo Stewart. Com respeito à essa história contam os bastidores que a finalidade da Universo era a de capturar para os seus templos os milhões de adeptos da arqui rival "Deus Não Suporta tanta Dor" imputando à esta última a contaminação virótica , inclusive bem assemelhada à versão contada pelos Fundamentalista. Por consequência a fofoca evangélica persiste até nos dias de hoje como o carro chefe nas pregações dos pastores da Universo, as quais dão conta que a fórmula foi conquistada pela Igreja rival através do cientista chefe da missão, já que aquele, acometido de grave depressão pelo flagelo imposto ao povo norte-americano, procurou os caminhos da paz nos braços de Deus convertendo-se à "Deus Não Suporta tanta Dor". E sobre ela é necessário esclarecer que o carisma do seu fundador Reverendo Clodomiro Santiago Jones era tanto, e o seu poder de indução e convencimento tão espetacular que, em menos de duas décadas a igreja já congregava milhões de fiéis, mantendo templos espalhados pelos quatro cantos do planeta. Logo, a "Deus Não Suporta" era uma pedra no sapato da "Universo"

Afirmam ainda as fofocas da "Universo" que à princípio a conversão do cientista não fora o suficiente para dar cabo às dores de sua alma, e ele precisava falar, confessar, pois talvez a sua paz estivesse nos braços do Reverendo Clodomiro, homem de Deus,ele sim capaz de lhe trazer o conforto e o perdão divino.
Daí para frente não foi difícil, e o depressivo cientista foi lobotomizado pela esquizofrenia do Reverendo, e convencido por este a recriar o vírus, logo, o sofrimento de Deus não seria perene. - " Está próximo o grande dia que a justiça de Deus se dará pelas mãos de algum humilde servo" - Rotineiramente pregava o Reverendo Clodomiro Jones, pois para ele o homem era o grande mal que afligia o universo, portanto merecedor de sofrimentos e privações até que houvesse o dia sua redenção. E foi diante deste quadro que a marionete científica, refém da psicopatia destrutiva de Clodomiro acabou por ceder aos argumentos e recriá-lo na mesma forma líquida, límpida e inodora. E o grande dia da redenção chegou, e as ações despontaram universais, concatenadas através dos abnegados obreiros que misturaram a química virótica às margens dos grandes e pequenos rios. Evidente, todos foram iludidos ao acreditarem que a água contida nas milhares de garrafas fosse ungida pelas orações do Reverendo Clodomiro Santiago Jones, e quando ingerida pelas populações sofredoras possibilitaria o alívio para os seus males, afinal, era isto o que lhes afirmavam as vozes dos fanáticos pastores, igualmente tapeados pelo fundador.

Certamente e segundo todas as versões o fanatismo religioso esteve por trás da execução, e não acolho nenhuma. E o difícil em creditar está ligado ao fato dos mandantes não pleitearem a morte química de imediato, aquela que lhes tiraria a vida naquele mesmo ano de 2121 ou seja; todos pretendiam viver, e que recaísse para uma geração futura o ônus do fim da existência. Sobre a história contada pelos católicos fica mais difícil ainda, pois ao acreditar que Deus nos tivesse negado o direito à vida seria o mesmo que aceitar que houve Paraíso, Eva e a maçã, por conseguinte a excluí também. Todavia aqui não estão e nem mais a esta vida pertencem os falecidos Emir Macedo Stewart, Clodomiro Santiago Jones, e o líder terrorista da rede Al Qaeda de então, pois se aqui estivessem talvez conseguíssemos saber quem foi quem neste perfeito samba do crioulo doido. Logo o conjunto das três versões traz fantasias que impressionam, apesar de não constituir novidade a rivalidade das religiões, principalmente as ocorridas entre os igrejas evangélicas, bem como as suas manipulações com a fé e o dinheiro dos incautos. Porém seria pura quimera ou ingenuidade minha acreditar num Deus anti-vida, ou os xiitas, ou mesmo que fanáticos evangélicos estiveram derramando milhares de garrafinhas de água nos leitos dos rios do mundo
Entretanto reconheço; nesse mundo tudo é e será possível, e haverá sanidade, existirá loucura e transbordarão as ideias e o direito às palavras será amplamente livre e defendido, mesmo que não acordado. Portanto é bom termos o máximo de certezas quando os pensamentos abandonam nossas mentes, vibram nas cordas vocais e se expelem pela boca, pois por ela jamais retornará e marcará posicionamento contundente tal qual ao cravamos a pecha de bêbado num sujeito onde o excesso de bebida produziu os transtornos da fala e da coordenação motora.
Todavia, fanáticos, sonhadores, bêbados e abstêmios dizem o que querem, ouvem o que precisam, e em meio à tudo haverá realidades e fantasias, trapaceiros e trapaceados, aquilo que sabemos e jamais saberemos, assim como fatalmente em quem ou no que acreditarmos ou deixarmos de acreditar, pois isto é a vida.


Part. IV – Arbítrios & Censuras e Retrocessos

Agora, afora as celeumas com a infertilidade há de se destacar que estamos num mundo difícil, lento, atolado em idéias estacionárias, e isso nos transforma dia a dia numa Cuba do passado. Logo, estamos país retrógrado, obsoleto, e onde só há relativa evolução em segmentos que atendam os interesses do governo, como os setores da informatização. Exceto estes, o nosso parque industrial é arcaico, ultrapassado, como por exemplo, das indústrias dos fármacos e automóveis, já que usamos as mesmas drogas e carros há mais de 60 anos. Porém o segmento que mais nos pune é o automobilístico, pois falidas, as grandes montadoras foram fechadas, legando às pequenas fábricas a produção de poucas peças de reposição, o que nos obriga a vasculharmos o mercado negro, pagando os olhos da cara por acessórios e equipamentos que há muito estão fora de linha.
E essa é a realidade desalentadora, e estamos assim estagnados, à deriva, afogados em retrocessos, pois não há no Poder alguém de competência e que vislumbre a retomada do progresso, pois a temos como nave-mãe, Vilma Dirceu Inácio, a “Dama de Lata” a quarta "Presidenta" da nossa história, mandatária que naufraga nos fracassos da sua política e administração.
A guisa de mero comentário e sobre o termo "Presidente" é bom não perdermos de vista o quanto se perde tempo com tolices improdutivas, pois ainda nos dias de hoje o termo confronta inteligências e gramáticos, lançando-os em acirradas e cansativas discussões quanto à propriedade ou não do uso, mesmo que a palavra marque lugar em centenários dicionários como o do Aurélio e Houaiss.

Retornando à questão da anticoncepção e em se levando em conta que os evangélicos, os xiitas e o pessoal do Bin Laden nada possam a ter com o peixe, é importante conjecturar a participação de outras potências, apesar de parecer insano a ideia deles mesmos decretarem a morte do homem em tão curto espaço de tempo. Porém alguns fatos corroboram, pois desde 2121 a Internet passou a ser fornecida e administrada por governos que se exacerbam em acintes moralistas. E é mais que vidente, no Brasil e com a Internet em mãos o primeiro ato foi o de ter acesso à todos os computadores e promover ações que visassem erradicar tudo que se relacionasse à sexo, exterminando assim sites de pornografias, sex shop, revistas de nus, ou outros que pretendessem (2o a visão deles) difundir material que corrompesse a moral e os bons costumes. Inclusive e a partir daquele ano os governos obrigaram as indústrias da computação a criar chips inteligentes que, uma vez instalados em PCs aniquilassem arquivos e mídias caso suspeitassem do conteúdo. Convém realçar que tal tecnologia foi desenvolvida não só para os computadores, mas igualmente para uma gama de equipamentos profissionais ou caseiros que tivessem por objetivo a gravação e reprodução em mídias, assim como são os aparelhos de DVDs.
Enfim, foi refém desse e outros atos arbitrários que nos tornamos escravos do reacionarismo, expostos ao conservadorismo ideológico como os que acataram as diretrizes impostas por um movimento conservador denominado Tradição, Família e Propriedade (TFP) que atuou de forma mais incisiva em épocas distantes, algo entre os anos de 1960/70.


Part. V – A prostituta e os nossos velhos hábitos de sempre

E é neste contexto de tolhimento das liberdades, inclusive a sexual, aliado à população mundial que indica a proporção de uma mulher para cada grupo de três homens é que torna dificultoso relacionar-se com uma dona das boas. E quando surgem as que valham a pena somos capazes de nos engalfinhar por elas e por suas xotas, mesmo que estas sejam experientes e com longo tempo de estrada. E quando encontramos umas dessas mais novinhas de 60, aí sim nos deixam loucos e fazem-nos esmerar em gentilezas e desdobrarmo-nos em galanteios ao remeter-lhes buquês de flores caras e e-mails com conteúdo sensível e romântico, as vezes até com gravuras de gatinhos e ursinhos.
E talvez pelos fatos narrados é que estranhem um sujeito de 82 como eu estar divagando sobre trepadas e mulheres. Entretanto há sim o motivo e ele é fundamental; O avanço da ciência médica foi tanto em épocas passadas que nos legaram poderosas drogas que nos mantém ativos sexualmente, mesmo que próximos dos 90 anos. E graças a essas maravilhas da medicina, agora não tão moderna é que posso usufruir de alguns prazeres, mesmo que em minha idade.

E como o assunto envolve sexo e prazeres não custa relembrar uma noite ocorrida no ano passado e em qual dei uma das melhores trepadas de minha vida. O seu nome era Judite e sobre ela só posso dizer que tinha 62 anos, bonita, mas que se prostituía camufladamente ao fazer ponto diante da Igreja Rosas da Vida. E a danada era esperta ao usar o disfarce de vendedora ambulante que comercializava num pequeno tabuleiro diversos artigos religiosos como medalhas, terços, fitas, crucifixos e outros amuletos, inclusive, penduricalhos que facilitavam e favoreciam o seu acobertamento.
Recordo que naquela fria noite de junho Judite estava ao meu lado no banco do passageiro do automóvel ao entrarmos no estacionamento dum hotelzinho de quinta categoria. É certo que eu estivera por lá algumas vezes à custa de propinas, pois somente dessa forma é que conseguíamos um quarto, burlando assim não a lei do direito, mas a lei de fato, pois o flagrante de prostituição ou fatos que desaguassem nele constituía prisão inafiançável e eventual julgamento e pena judicial.
Descendo do carro e conhecendo um antigo recepcionista do hotel me dirigi à recepção e lhe entregando os meus documentos paguei antecipadamente a diária juntamente do valor da propina. E sobre o suborno é sabido que têm o dom de deixar certos sujeitos em estado de tensão, principalmente os que estão sujeitos à fiscalização relâmpago. E foi a forma que se deu com recepcionista de olhar ansioso e preocupado, ciente que arriscava não só a sua a liberdade assim como a do hoteleiro que, provavelmente no lazer de sua casa nada devia saber. Assim que conferiu os valores Manuel enfiou a quantia do ágio no bolso da calça e me sorriu com dentes amarelados de nicotina, esparramando no sotaque português as suas recomendações:

-Olha gajo, cá muito me alegro por te ajudar a dares uma cacetada no bofe, mas peça à rapariga que se contenha nos delírios, pois há ouvidos espiões por todos os cantos e paredes do edifício. Gozar é bom, mas é preciso ter responsabilidade, cuides de mim para que eu possa cuidar de tu – Ao fim de suas falas professorais me liberou as chaves do quarto. Evidente, só me coube sorrir discretamente para o nosso universo de canalhices.

Certamente eu não desconhecia os motivos de sua preocupação, pois não foram poucos os hotéis tomados e seus donos e gerentes encarcerados por falta da comunicação oficial da hospedagem, ou que agissem de forma permissiva facilitando e contribuindo com os tramites da prostituição. Evidente, seria de total contra-senso não acolher os casais em hotéis, porém, a autorização só contemplava os pares amorosos que estivessem sob a égide da legalidade civil, fato possível de se averiguar após o registro e troca de informações via internet entre o estabelecimento e o órgão oficial do turismo. Sim, décadas antes qualquer mortal jamais imaginaria o arbitrário desses fatos, inda mais de ser a União a detentora de todas informações do indivíduo, mas, efetivamente era assim que funcionava.
Com as chaves em mãos subimos para um quarto no segundo andar e abrimos a porta de número 21 e adentramos o aposento de três por cinco com um pequeno banheiro incluso. No ar rescendia o cheiro da naftalina, então retirei o meu paletó e o pendurei hum cabideiro próximo da porta de entrada. Estirando-me à cama procurei junto ao console da cabeceira os controles do radio FM e sintonizei uma estação que tocava exclusivamente Roberto Carlos, um dos imortais do cancioneiro popular. Sim, mesmo que não fosse do seu tempo eu me sentia sendo do dele, apesar de lá pra ter passado quase dois séculos. E outra coisa, Roberto significava para mim algo como Mozart representou para os amantes da música clássica. Bem, deixando Mozart de lado e um pouco mais descontraído aumentei o volume do rádio e ao som de “Eu sou terrível/E é bom parar” desnudei Judite.


Part. VI - Trepadas & Mentiras, Verdades e Constrangimentos

E ela, convenhamos, mostrou-se atraente apesar dos seios pequenos e flácidos, porém dona de interessantes curvas e duma tez que não trazia na região das pernas e do bumbum o inexorável estrago provocado pelo tempo e nem as visíveis estrias ou celulites tão próprias das garotas mais novas que ela. Com coisa levando à outra me despi também.

-Nossa, Mario! Como você tem varizes! – Ela disse ao reparar na parte inferior de minhas pernas. Olhei para elas, para o azulado delas e Judite tinha razão, pois minhas veias pareciam cortar a aridez dos desertos mexicanos com rios de alto relevo.

-Bem, sim, tudo bem.. mas, os seus peitinhos bem que poderiam ser mais atraentes, não é verdade? – Respondi com uma pergunta. Certamente as suas observações me deixaram chateado, afinal, aquela garota não teria relações com as varizes, mas sim com o meu membro.

Diante do questionamento Judite esboçou um sorriso amarelo, desenxabido, e eu me arrependi de ter falado sobre os seus peitos. Tentando quebrar o gelo retirei duas cervejas do frigobar e dei um gole na minha e abri uma para ela, e não foi sem espanto que a vi consumir a sua cerveja em míseros três longos goles. Peguei outra para Judite, e assim que ela se descuidou com o olhar meti para dentro da goela um “Potentus” um daqueles comprimidinhos azuis que operam maravilhas com nossas auto-estimas e veias que irrigam o pênis. Não, não seria por nada, ou algo de importante, mas a questão é que sentiria constrangido se ela me visse engolindo um daqueles, mesmo que depois houvesse nela a certeza que meu desempenho deveria creditado a uma dessas “bombas” da terceira idade. Estávamos indo pro fim da sua terceira cerveja e eu ainda no início da segunda quando deitei e abracei o seu corpo. Judite suspirou e procurou a minha boca e enfiou a língua e a espremeu na minha. Foi o suficiente para me excitar e o pênis içou enquanto ela remexia o seu sexo à procura de maior atrito. Repentinamente ele separa nossos corpos e olha para baixo e na direção do meu pau.

-Olha só, meros 17 centímetros? Que merda! – Ela exclama olhando para mim. O seu olhar parecia desencantado, pois foi extremamente fácil perceber. Ah, cadela filha da puta! - Pensei - A vendedora de araque deveria ter uma fita métrica tatuada no cérebro. Bingo, ela fechara a cartela! – Disse comigo, invocado.

Enfim, achava sacanagem constranger assim os seus clientes, e talvez ela me fizesse pagar um preço muito caro pela observação dos seus pequenos e flácidos seios. Porém aquilo não me desanimou, ao contrário, me incentivou, eu e o amigo Potentus, óbvio. E o pau latejou como nunca quando a penetrei e sorvi sua boca de todos os dentes, fossem eles falsos ou não. Dali pra frente eu a possuí como um animal, o rei da selva galgando sua Jane, de quatro, de lado, frente e verso. E Judite à princípio gemeu, suspirou, depois não mais se conteve e seus ais e uis denunciando prazeres ecoaram pelas paredes, atravessaram portas ao mesmo tempo que dispara o telefone do quarto:

-Hélou! Por favor senhor Mario! Peça à sua sirigaita que se expresse com mais moderação, pois ca ouço os gemidos da rapariga daqui donde estou na recepção! – Ele esbravejou. Ainda com o interfone no ouvido fiz um sinal para ela ao bater o indicador nos lábios. Judite sorriu, imitou o meu sinal e levantou o polegar da mão direita como dizendo; entendi, tudo bem.

Ficamos por ali enroscados e conversamos sobre algumas coisas e depois falamos de sua vida, e a dela era como as de tantas outras prostitutas que confessam miséria, culpam a separação dos pais ou a completa omissão dos familiares Ao ouvir o seu relato pensei por instantes que deveria existir cursos de prostituição, por debaixo dos panos, mas deveriam ter por objetivo convencionar a hora do "Beaba" daquilo que deveria ser dito ou não ao cliente.
E ficamos ali tomando cervejas, fumando cigarros até que num momento o tesão aflorou outra vez e demos uma rapadinha, porém sem muito alarde dessa vez. Terminado, fui para o banheiro dar uma boa mijada e na volta retirei do frigobar duas pequenas garrafetas de vodca que se acomodavam ao lado das latas de refrigerantes e saquinhos de castanhas de caju. Achei estranho ver os saquinhos ali, mas talvez o português acreditasse que as castanhas se conservassem por mais tempo se mantidos em temperaturas mais baixas.
Repentinamente estávamos carinhosos, e ela era divertida e eu começava a gostar do seu jeito e sorriso ao consumir a vodca. Terminadas, retornamos para as cervejas, e rimos bastante, e foi quando Judite quis saber de mais detalhes sobre a minha vida.

- E você, o que faz Mario? - Ela pergunta

-Trabalho com Van de transporte. Pessoas – Respondi.

-Deve ser muito trabalhoso, não? – Insistiu.

-Sim, muito, mas sozinho. Sou eu e o Guilherme – Respondo secamente. Bem, mesmo não gostando de falar de mim poderia ter mencionado que estava viúvo há 10 anos, e que Guilherme, de 61 anos, seria o meu filho, nascido quase um ano antes da degola dos pobres fecundadores e receptores de vida. Todavia acreditando que seria mais um motivo para especulações preferi omitir.

-Ah... com o Guilherme...sei, sei, que bom! Então vocês fazem lotação para levar as pessoas ao trabalho?

-Não, não exatamente! Fazemos ponto em agências do SUS, entradas de P.S municipais, estaduais, velório, cemitérios, principalmente em dias de finados, bailes da saudade e em igrejas que tenham missas dominicais, pois são os locais mais frequentados por pessoas acima dos 90, logo, o movimento é dos bons. Aliás, por falar em igrejas foi na Rosas da Vida que te conheci, lembras?

-É verdade, lembro sim! - Ela assentiu - Recordo que naquele dia tinha uns cinco ou seis querendo sair comigo, mas é que te achei tão simpático assim que se aproximou. Mas, espera aí! - Ela exclama num gritinho de dúvida - Como você soube que eu fazia programas? – Judite persiste me olhando com olhos de quem exige a resposta.

-Bem, há muito tempo transito naquela região e o suficiente para saber que todos que se aproximaram de você eram perfeitos garanhões. Inclusive correm boatos que muitos deles deram boas fincadas em algumas beatas do clube das Senhoras da Liga Católica. Portanto foi fácil, pois onde há fumaça há fogo, banana... macacos, putas...salafrários. A vida é enigma só para quem não sabe interpretá-la – Repliquei num tom divertido e olhar malicioso quando fomos interrompidos pelo som do celular, meu celular.


Part. VII – Odisseia sobre o país do futebol

Olho no visor e reconhecendo o número, atendo:

-Porra, menino, tu é foda mesmo! - Mesmo antes da pessoa dizer qualquer palavra, antecipo-me. Mas estava tão aborrecido que tive que continuar - Tu sabes que fico louco quando somes. Sabia que teus desaparecimentos me matam? Não faça comigo outra vez, por Deus! – Concluí num tom nervoso. Lógico que estava preocupado com ele, pois nas ruas estavam matando gente à troco de nada. Era estranho, afinal, como os velhos de hoje podiam ser tão ou mais agressivos que os jovens da minha juventude?

-Quem é? – Judite me pergunta. Ela permanece atenta à conversa e parece preocupada e me olha de um jeito estranho.

-É o Guilherme – Replico. Ela assente com a cabeça enquanto o meu filho continua, sempre tagarela.

-Desculpe pai, sei que deveria avisar, sei que não é comum dormir fora de casa, mas conheci uma loira da hora, talvez uns 67, artista plástica e olhos azuis, linda e os cambaus! Mas, tem outro lace... VELHOOOO! NÓS ESTAMOS BONITOS NA FITA! – Ele berra ao celular

-Bonitos? Com assim? – Pergunto

-Assim pai, eu recebi um e-mail da diretoria do Corinthians e eles querem assinar um contrato comigo. Pode? Eu nem sabia que o pai do Huguinho era um dos diretores e olheiro dos caras! – Ele exclamou, feliz. O meu garoto parecia um garoto como eu fora, tal o entusiasmo.

Aqui, e para que entendam m pouco da história, Huguinho, de talvez uns 62, era o companheiro do meu filho no ataque do time de várzea que jogavam. Mas o Huguinho jamais foi o craque, porém meu filho o era, tantas foram as vezes que o assisti, sempre se destacando com belos gols e jogadas inteligentes, refinadas. Entretanto desconhecíamos o fato que o pai de Hugo fosse um dos diretores do Corinthians.

-Pai? – Meu filho insiste

-O que foi Guilherme? Só falta afirmar que não vamos nos ver hoje! - Reclamo distanciando do futebol e de campos da várzea.

-Claro que vamos! Bora comemorar? Hoje é por minha conta, já que no meu aniversário de 60 no mês passado foi o senhor que pagou o churrasco. Olha...tem um lugar quentíssimo que um amigo me indicou. Ele disse que lá tem umas perrengas legais, cheias de espartilhos e perfumes. Vou te pagar a melhor delas, quer?

-Não, to fora! Estou com uma joia raríssima ao meu lado, talvez algo tão maravilhoso como você! - Replico com um orgulhoso sorriso de pai cravado no rosto. Judite me olha e parece não entender a conversa, mas sorri encabulada. Lógico que não contaria para ele e na frente dela os detalhes dos seus peitos flácidos, muito menos do tamanho do meu pau que não atingiu suas expectativas iniciais.

-Então está bem pai! Dormirei novamente na casa da loira e amanhã nos vemos lá pras nove da manhã, pois quero que o senhor vá junto negociar meu contrato. Ah... e conforme for vá pensando em se despedir de tua Van, pois o seu novo emprego será de empresário. Topas? Beijos –

-Claro que topo! Eu te amo seu filho da puta! Fica com Deus! E toma cuidado, principalmente com tuas pernas e pés! –

Em seguida desligamos e me enfiei na cueca samba canção e deitando as costas na cama acendi um cigarro e fiquei olhando para o teto, imaginando toda aquela questão. Judite se manteve distante do meu corpo enquanto eu matutava sobre Guilherme e o futebol. Está certo que o futebol de hoje era diferente ao dos nossos antepassados, pois ele é jogado em dois tempos de 20 minutos com meia hora de intervalo para o descanso. Mas mesmo assim reconhecia que o futebol era perigoso, era arma, principalmente para a faixa etária dos sujeitos que o praticavam, pois ativa a pressão arterial, sanguínea, acelerando batimentos cardíacos que, às vezes promovem infartos e AVCs, e outras causas menos devastadoras.
Sim, não consigo me desligar das lembranças que dizem que não foram poucos os que pereceram dentro das quatro linhas, geralmente por fatos ligados ao coração. Também não podemos deixar de lado aqueles relegados ao esquecimento diante o acometimento das artrites reumáticas, bursites, gotas ou aqueles que prematuramente se aposentaram com sintomas das doenças que desafiam os séculos como o diabetes, Parkinson, Alzheimer, além do imbatível câncer como o da próstata e outros.

Porém não era o caso de Guilherme, não agora, pois o garoto é dotado de excepcional forma física, além de ter um coração de touro, afinal vaidoso como é jamais se descuida do corpo e dos periódicos exames essenciais.
Entretanto, mesmo que haja o comprometimento médico ao prevenir e salvar vidas, há acidentes se multiplicando pelo país, principalmente nas estradas por motoristas sonados ou de reflexos lentos, ou nos ares com os aviões, comandantes, controladores de vôos com isentos de discernimentos precisos. Logo, o futebol, que é paixão mundial, também sofre com as mazelas dos transportes, das viagens, pois pra ganhar dinheiro, muito dinheiro, o jogador se vê na necessidade de atravessar oceanos e zanzar de lá pra ca e vice versa. E há sim casos onde eles ganham um bom dinheiro em nosso país, raros, diga-se, pois talvez o futebol seja o único segmento que permite alguém nascido em favela se tornar tão famoso como um dono de TV ou frequentar as festas do dono de um site milionário.


Part. VIII – A Europa reverencia o craque e a puta despreza Paris

Ah Guilherme! Que Deus te ajude e nunca desampare - Desejei comigo em pensamentos - Confio em teus pés e sei que eles no levarão à Londres, no Chelsea, ou à Madri, no Real, ou quem sabe em Barcelona, Milão, Frankfurt, até em Moscou, e por que não? Afinal a gama de milionários que mais investem no futebol é a russa, mesmo que não saibamos da onde surgiram essas incontáveis montanhas de dinheiro...

-Ah Guilherme, eu te amo, mas, por favor, quero mais, me dê mais! É justo, e quero estar com você em Paris, no Saint Germain. Quero e vou estar com você barbarizando a Europa! Sei que veremos o brilho da Cidade-Luz, a apaixonante Torre Eifell e suas milhares de lâmpadas que fazem a noite parisiense cintilar como milhões de insones vaga-lumes. Ah, eu quero poder sentar à calçada de bistrôs nas tardes de verão e degustar em cálice de cristal o mais puro vinho produzido das melhores parreiras do universo – Repentinamente sou acordado pelo som da minha própria voz juntamente ao da válvula de descarga sendo acionada. Olho para a porta do banheiro e surge Judite. Firmando as vistas reparo que está totalmente vestida e retoca a maquiagem diante do espelhos de um desses pequenos estojos maquiadores.

-O que foi meu anjo? Que aconteceu? – Pergunto, aturdido, pois no meu delírio com os times e países da Europa perdi-me dela e não dei conta dos seus movimentos pelo quarto. E ela continuava me olhando, e seus olhos eram duro e cruéis e seus lábios tremiam quando sambou um carnaval de insanidades.

-Que foi...o que foi? Ora homem, tem coragem de perguntar? Justo você, uma biba enrustida?

-Mas, como assim? - Questionei assustado com sua agressividade, e sem saber ao que se referia.

-Como assim o cacete, Mario! Eu falava com você e você nem me ouvia. De repente iniciou frases estranhas, do tipo “Ah Guilherme, eu te amo, mas, por favor, quero mais, muito mais” Ora! Isso só pode ser coisa de homossexualidade na terceira idade,! Terei que desenhar? – Dito, pegou a sua bolsa, enfiou o estojo de maquiagem dentro dela e deu duas batidas de saltos de sapatos ao chão enquanto eu tentava explicar, impressioná-la com certa dose de romantismo e fineza. Eu não a deixaria ir embora tão facilmente.

-Soyez calme putain belle ! Vous emmène à connaître Paris , la ville du monde . Vous faites une grosse erreur! - Ainda tentei

-O que? Que tem essa porra de vila do mundo? Pensa que vai me enrolar com essa conversinha cheia de mimis? Vá te catar cara! E outra coisa seu merda...não precisa pagar porra nenhuma. Saiba, tive nojo de ter transado com você! – Judite esbravejou. E foi assim que ela bateu a porta de número 21 e nunca mais a vi pelas imediações da Rosas da Vida ou de qualquer outro canto.

Depois, sozinho à cama e analisando os acontecimentos foi que percebi que gastei inutilmente com ela o assimilado em quase dois anos de estudo e nos mais de 50 DVDs recebidos do Correios, referentes ao curso de francês por vídeo correspondência. Enfim, era tão incontestável sua precipitação e eu só queria que suas agressões cessassem e que soubesse do equívoco que estava cometendo. Aliás, eu poderia querer bem mais que compreensão, pois tinha me afeiçoado a ela, e talvez num futuro próximo estaríamos em Paris, e sairíamos para compras, e depois, de mãos dadas perambularíamos pelas ruas da Cidade Luz. E havia urgência, já que a morte me que riria, e ela galopava à patas largas em minha direção, mesmo sabendo que estava concedendo algum tempo para mim. E antes que ela chegasse e me pegasse de calças curtas e num estágio bem mais avançado onde urinóis permanecem sob as camas e dentaduras amanhecem sobre as mesas de cabeceiras levantei e fui ao banheiro onde a ducha quente dum Lorenzetti me relaxou o suficiente, e eu cantarolei "C'est la vie, c'est l'amour" uma das frases de uma canção do igualmente imortal Charles Aznavour.

Todavia o imortal francês não durou muito - "Ah sua filha da puta, bicha enrustida, é?" - Relembrei no exato momento que meus olhos arderam ao serem atingidos pelas espumas do sabonete. - "Você já era! Não reclame, teve a sua oportunidade nenê" - Exclamei em alto som e injetei a língua para fora como se fosse um garoto birrento. A puta camuflada de vendedora de badulaques religiosos zombara da chance para uma vida melhor, e talvez continuar vendendo a sua xoxota lhe fosse a sina. Ainda revoavam em minha mente as suas mentiras e a grave difamação enquanto a água continuava escorrendo pelo corpo. Olho para o alto e os minúsculos furos do chuveiro ejetavam água em meus olhos, e Paris outra vez me captura os devaneios e eu penso nas mulheres, nos milhões delas espalhadas por aí, perdidas em filas de ônibus, metrôs, nos caixas de supermercados, aguardando em bancos, esperando a vez nas ante-salas dos geriatras, oftalmologistas, dentistas e outros tantos lugares. E quanto mais penso nelas mais me convenço que não preciso de todas elas, mas apenas uma, da boa, quem sabe até parisiense, uma que se entrelace em minhas pernas, me olhe com doçura e sussurre em meu ouvido um "bonne nuit mon amour". Sim! E por que não? Paris! Paris! Paris! Paris me enamora e talvez as suas mulheres me aguardem, e mesmo que não me queiram sempre haverá as prostitutas, provavelmente mais charmosas, educadas e compreensíveis.
De banho tomado volto para o interior do quarto e vestido abandono a porta 21 deixando a toalha molhada sobre o ordinário edredom da cama. Desço para a recepção e acerto com o recepcionista o consumo do frigobar. Antes de sair me chama a atenção a lapela do paletó de Manuel, pois vejo nela algo que não estava ali ao chegar. Olho mais atentamente para a figura estampada no pequeno botton e não distingo o canonizado que exibia acima da cabeça uma circunferência luminosa.

-Que santo é esse, Manuel? - Pergunto para ele com o olhar fixado no pequeno broche alfinetado

-Ah, este a ca é meu santinho Padre Cícero! - Ele exclama satisfeito num mesmo momento que acaricia o botão - Ca sou eu muito devoto desta santidade, sabias que ele nasceu no Rio Grande do Sul?.

Tive vontade de gargalhar, porém me contive e apenas sorri e depois lhe disse um "Até a próxima". e ele me retribui.

Judite além de ser uma prostituta caluniadora era também dotada de ignorância e vigarice por vender gato por lebre, pois o brasileiro Cícero Romão Batista, popularmente conhecido pelas bandas do nordeste como Padim Pade Ciço, além de não ser santo, portanto não canonizado pela igreja, fatalmente jamais fora gaúcho, cearense de nascimento que era.



Copirraiti12Abr2013
Véio China©

A Balconista, de Véio China - www.inspiraturas.org


A Balconista

Era um ótimo dia de céu azul e nuvens brancas. Eu estava no parque e aproveitava o sol da manhã para zanzar pelas alamedas e observar os pombos. Vez ou outra marcava ponto por lá e eles me entretinham, e eu olhava os seus pézinhos lépidos e bicos frenéticos ciscando o chão nervosamente à cata de miolos de pão e outras bobagens que lhes atiravam. Eu achava engraçado a avidez na qual se entregavam aos alimentos, pois provavelmente deveriam supor que tudo lhes seria comida, inclusive as embalagens plástica vazias deixadas por todos os cantos do parque. O fato me causava certa inveja, não daquele amontado de lixo deixado por um povo sem a mínima civilidade, mas do sistema digestivo daquelas aves que, metabolizavam tudo. Fiquei por lá mais alguns minutos observando seus trejeitos e a forma como interagiam, e não percebia qualquer hierarquia entre eles, mas sim a predominância da lei do mais forte, inclusive a de um deles em especial que, estufando o peito e movendo abruptamente as asas se apossava dos nacos maiores dos famintos companheiros. Evidente, nós os humanos também vivíamos numa sociedade parecida apesar de existir entre nós certa preposição hierárquica. Óbvio, oficialmente há o ordenamento, mas a evidência não é o estado da ordem de fato, mas sim a predominância da lei do gatuno, da coisa espúria, do poder que corrompe e é corrompido, mesmo que os partícipes das milionárias negociatas jamais as admitam. Portanto, se assim ocorresse com as aves seria de questionar se haveria entre elas alguma forma de constituição, e em existindo não seria espanto rezar em suas cartilhas o maldito blá blá blá de sempre, a teoria do "somos todos iguais perante a lei", claro, coisa que só inglês consegue ver.Bem, perdido na estupidez desses pensamentos passaram-se mais de 15 minutos, e eu me sentia enfadado, portanto resolvi me mandar dali antes que mandasse tudo e todos a puta que pariu. Ao abandonar o parque me lembrei de algo importante, logo, rumei para a drogaria mais próxima. Eram dez horas em ponto quando encosto o umbigo no balcão.

-Moça, por favor, duas Jontex lubrificadas – Peço para alguém na posse dum sorriso comercial.

Evidente, eu estava constrangido, pois nunca havia visto naquela farmácia a figura feminina atrás dum balcão. A resposta veio com outra pergunta, fulminante, descabida. Novamente cravo os olhos na garota, e ela não deveria ter mais que 16 anos, a mais linda querubim num corpo do demônio.

-Pe..Eme ou Ge? – Fulmina-me com expressão maliciosa. Eu a olho desconsertado enquanto a garota dedilha os malditos envelopinhos de preservativos colocados num expositor atrás de si e na parte interna do balcão. Seus tons e olhares me incomodam, e não sei bem o que fazer. Tento a saída clássica

-Por favor, pode me chamar o farmacêutico? – 

Sim, solicitei a presença do dono, já que fatos como aqueles traziam à tona a minha convicção que homens de negócio deveriam fornecer cursos prévios aos seus funcionários, elucidando dúvidas dos clientes sobre os produtos. Todavia hoje em dia ninguém quem investir em nada, imaginam que tudo é custo, mesmo que o investimento em treinamento evitasse acontecimentos absurdos como aquele. Talvez ela nem fosse a culpada pela chacota sobre a questão do tamanho, afinal, quem poderia afirmar que seu último emprego não fora no balcão duma loja de confecções? Para a nossa sorte o dono da farmácia acabava de sair por uma porta lateral ao balcão, dessas, estilo vai-e-vem, que comumente vemos nos filmes do velho oeste.

-Por favor, Adamastor, estou envolto numa pequena questão. Pode me dar um minuto da sua atenção? – Solicito-lhe

Adamastor, o farmacêutico do bairro, sujeito sacana e irremediavelmente mulherengo me olha surpreso.
E já que Adamastor é o foco da vez não é impróprio comentar que ele, segundo as más línguas da vizinhança, vivia cercado de problemas, inclusive com o fardo de três pensões alimentícias pagas para suas ex-mulheres. 
E isso me deixava admirado com a sua resistência e fôlego financeiro, pois não é surpresa que grandes redes de drogarias esmagam os pequenos comerciantes ao dominarem o mercado de medicamentos e congêneres, portanto era um milagre que ainda estivesse de portas abertas. Adamastor persistiu me olhando e se manifestou:

-Claro, um minutinho, por favor! – Foi a resposta. Então se locomove lentamente, entra pelo corredor do balcão e ao passar por detrás do bumbum da garota estaciona o corpo, adianta o quadril mirrado e se encaixa no traseiro da menina num movimento amplamente canalha.

Ao presenciar a cena concluí que poderia estar nascendo ali mais um grande prejuízo financeiro e moral para Adamastor, apesar do fato não constituir novidade diante seus eternos problemas com o universo feminino. Olhei para ambos, Chapeuzinho e Lobo Mau, e nele os mais de 60 gritavam desconexos diante daquele rostinho de anjo e corpo do mal. Balancei discretamente a cabeça, pois talvez a idade estivesse prejudicando seu discernimento à ponto de não perceber que entrava numa fria. E o pior; as coisas poderiam ficar piores, pois a pedofilia, aliciamento ou prostituição de menores eram encaradas com certa rudeza pela legislação.

-Qual é o seu problema, Juvenal? – Ele pergunta ao se livrar da maciez do jovial traseiro. A mocinha meneia levemente as pernas e o bumbum e mostra seus dentes alvos, brindando-nos com um sorriso vagabundo.

-Bem..não há problema algum comigo, Adamastor! Apenas queria dois malditos pares de preservativos Jontex - Respondo para ele - Ah sim...lubrificados, antes que me esqueça – Concluo ainda constrangido. Ele olha para mim, indiferente.

-Ora Juvenal! Para isso poderia ter perguntado à Moniquinha, e ela o atenderia com toda presteza – Devolveu com perceptível má vontade. Depois emendou: - Ah, não estranhe a brincadeira, pois a instruí para perguntar ao cliente sobre o tamanho do seu preservativo – Pequeno, médio, ou grande. P.M ou G, captou? - Completou num risinho sacana. 

Não, eu não havia captado, portanto olho para ele, incompreensível, expressão que deveria estar lhe questionando algo do tipo: "Você ficou doido, homem?". Ele continuava me olhando, e eu podia notar o ar zombeteiro. Por fim, talvez incomodado pela minha sisuda fisionomia achou por bem explicar o porque daquilo tudo:

-Sabe, Juvenal, é apenas uma toque de bom humor junto ao cliente. Foi a forma mais light que encontrei para quebrar o clima da timidez costumeiramente estabelecido entre os homens e atendentes mulheres.

Ah... agora captei!– Exclamo idiotamente enquanto Moniquinha insiste no sorriso cretino. Olho para ela , para a sua boca de lábios grossos tingidos por um batom provocante, vermelho, quase sangue, e parece que ela quer me engolir numa só bocada. Ainda demonstrando impaciência, Adamastor solicita.

-Moniquinha, por favor, continue atendendo o meu amigo Juvenal – 

Daí, ainda de má vontade me faz um sinal de até breve batendo na testa os dedos da mão direita em continência. Daí da dois ou três passos, estaciona novamente no rabo da garota e a encoxa. Feito, some pela porta de cowboy.

A moça outra vez se posta à minha frente e retira dois pares de camisinhas lubrificadas do expositor. Sem desgrudar dos meus olhos coloca-os num envelope, faz a nota e me entrega.

-Pode pagar pra mim, Juvenal – Diz num tom forçado, assim como dessas atrizes em início de carreira que se imaginam no mesmo status duma Fernanda Montenegro ou Marília Pera. Depois se dirige para o caixa. Penso naquilo por segundos e estranho o seu tratamento e a falta da palavra “senhor”

Vou ao guichê e tiro algumas notas da carteira e as empurro pela fresta do vidro. Ele confere e me dá o meu troco. Agradeço com um movimento de cabeça e preparo-me para sair da quando novamente sou interpelado por ela.

-Sabe Juvenal, acho que deveriam mesmo implantar esse negócio de P.M.G.

-Hã, como assim? – Questiono. A garota não esquecera daquela bobagem toda. Ela segue adiante.

-Ah, assim, veja...Certa vez sai com um japonês, e pra minha surpresa ele tinha um treco imenso, deveria ser o jegue de Pequim. Num outro lance saí com um cara super musculoso, de academia, bonitão, saradão, e ele me deu um porre de caipirinha de vodka e me levou prum Motel. Nossa! Fiquei ansiosa, excitada, mas foi fria; Ele tinha um pingulinho que, mesmo estando duro coube na palma da minha mão – Exclamou com os dedos polegar e indicador paralelos e com pequena distância entre si. Aí riu debochada.

Realmente a garota era surpreendente. Olhei para a mocinha que fez de Pequim a capital do Japão, e murmurei um “hum rum”. Antes de dar-lhe as costas ainda ouvi a sua última questão

-Juvenal, desculpe, mas estou muito curiosa a seu respeito – Confessou num tom estranho, intimista assim como o dos amantes.

-E que curiosidade seria essa, moça? – Questionei, desconfiado e surpreso.

-Bem...bem.. – Depois de algum embaraço ela arranha a garganta, e assim que percebe que nada atrapalhará a tonalidade da voz, pergunta: O seu é... P...M ou G? 

-Pequeno, médio ou grande....pequeno, médio ou grande - Desconsertado balbucio as palavras, e continuo olhando para ela, e ela, mais que nunca me parece ser uma trepada inexperiente, mas das boas.

Sem que lhe forneça detalhes Moniquinha persiste com o sorriso devasso, e ele macula a santidade do seu rosto. Foi meu momento de lamentação, assim como também o de Adamastor há 20 anos num buffet próximo dali ao receber os clientes do bairro para a comemoração dos 15 anos de sua farmácia. 

E o seu lamento naquela noite não deve reviver em sua memória, como deve ter esquecido das dolorosas porradas que ganhou do pai duma ninfeta de saia justa e pernas grossas que se encontrava na festa. Claro, a culpa coube aos seus atos desastrados e à mão boba que insistiu em aliciar o rabo da jovenzinha que, de era à-toa só tinha a pinta. Foi a hora do "deixa disso", de braços apartando os valentões, e só restou a Adamastor aproveitar os cubos de gelo do uísque vagabundo para consolar o enorme hematoma que se formou no olho esquerdo. Terminado o fuzuê, ouvíamos o farmacêutico murmurar "Eu não tive culpa, não tive culpa". Sim, não tinha culpa o safado, e definitivamente ele era um grande cara de pau, pois o mais provável foi o bumbum ter se locomovido por livre arbítrio até a sua mão espalmada.

Pois é! Agora eu também lamentava, um lamento que não era só meu, mas também do meu amigo Sidenafil religiosamente carregado comigo num dos bolsos da calça. Aquela tentação juvenil estava brincando com fogo, e eu, com meus 55 e barbas grisalhas jamais seríamos tão otários quanto o Adamastor. Pigarreio e olho atentamente nos olhos que se borram duma maquiagem azul e lilás que, combinam com os cabelos tingidos fortemente de ruivo. 

-Olha moça... Espero ansiosamente por essa mesma pergunta daqui dois ou três anos. Tudo bem? – E pela primeira vez abro-me num sorriso franco e honesto.

Como minha resposta ela gargalha estridente e requebra um samba como se fosse a passista campeã do carnaval carioca. Não há música, mas há as pernas dela e um sapato de salto 8, réplica ded marca famosa. E Moniquinha persiste requebrando...requebrando, até cessar a dança e o sorriso desaparecer dos seus lábios grossos.
Definitivamente aquela garota era louca, além duma descomunal porta de cadeia.

Claro, gora não havia qualquer dúvida; Adamastor estava ferrado!

Copirraiti23Ago2013

Véio China©

entre rosas e açoites


entre rosas e açoites

és água de Tales
princípio das coisas
e crua
dissipas matérias
desprendes ideias
nuas

qual gérmen
mundo estranho
feito de aliens
e coisas afins

habitas os confins
dos pensamentos
a textura do pó
do cimento
da areia
e diamante

um tipo formal delirante
que insurge poesia
quando brota nas noites
entre os capins
as rosas
e os açoites
para habitar o meu dia

sacharuk

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Hora estreita, de Lena Ferreira - www.inspiraturas.org

Hora estreita

Eivados por um mar de ardente chama
dois corpos sem castidade nenhuma
sorvendo gota a gota, uma a uma
da sede que possui quem muito ama

Nessa hora estreita e intensa que conclama
à entrega absoluta, a que consuma
a energia fluida e se resuma
num líquido efeito e se derrama

Em ondas que, entre avanço e recuo,
embalam os corpos lisos, e intuo
alimentando a sede pelo doce

Das ondas que, em explosões perfeitas,
convocam espasmos nessa hora estreita
que deita como se passar não fosse




- Lena Ferreira -

a palavra e o ponto

a palavra e o ponto

eu tateava
versos no escuro
sem os ver
agora os encontrava

dissolvidos na minha nudez
nos ouvidos da minha mudez
a palavra

e o ponto

sacharuk

bailarina das Luas





bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicantes
dos teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
dos teus contornos
abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios
dos raios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia
e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em tua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda

revelo-te silente
tal quem nada espera

sacharuk


dança no céu e escuta cores



dança no céu e escuta cores

sempre sinto fome de vida
mas hoje sinto de amor
sinto fome de cor
de lua
de mel

daí procuro
olhando para o céu
no meio da rua

e tu
que tens um pássaro dentro de ti
que surpreendentemente ouve as cores
sabe

que tenho fome de uma presença
do tipo que dança no céu
e também escuta cores

sacharuk